“Sair do armário” é super fácil

Inventou-se a expressão “sair do armário” no século XIX , mas hoje em dia continua a ser utilizada por muitas pessoas (a versão em inglês, coming out, é na minha humilde opinião uma alternativa bem mais simpática). Porque é que ainda se diz “sair do armário” e porque é que ainda se “tem” de fazê-lo? Será que continuamos assim tão retardados?

Estamos todos familiarizados com o nervosinho no estômago no dia em que apresentamos o/a namorado/a aos pais, certo? Agora imaginem quando essa pessoa especial é do mesmo género que vocês e em vez de estarem preocupados com um jantar ao estilo de “Meet the Parents”, estão a pensar se a vossa família vos virará ou não as costas dentro dos próximos minutos.

Não sei se há pessoas que pensam que isto funciona assim. Um dia, uma pessoa LGBTQIA+ está muito bem na sua vida e pensa: “Hum estou aborrecida, hoje quero virar tudo do avesso e tornar a minha vida bem mais complicada.” Depois dá um pulinho de alegria, soltam-se purpurinas à sua volta e sai de casa aos saltinhos pronta para enfrentar o mundo.

 À falta de empreendedorismo para resolver esta questão que assombra as pessoas LGBTQIA+ desde sempre, acho que se deviam criar packs de ajuda para “sair do armário” e anunciar na TV como se fosse uma televenda. Em vez da clássica campanha para perder peso: “Compre já Viva Melhor para um emagrecimento eficaz e rápido”, devia ser algo do género: “Compre já o pack Coming Out is Easy e assuma-se à sua família e amigos em apenas 2 dias. Garantimos aceitação total e resultados positivos em apenas 3 semanas. Durante a primeira semana, não se preocupe se o seu pai lhe responder: “Preferia que fosses toxicodependente!”. Garantimos que a partir da terceira não passará de: “Só não digas ao teu avô que ele acabou de pôr um pacemaker!” Acreditem, era um negócio de milhões. E que fique aqui registado quem foi a primeira pessoa a ter esta ideia.

Estamos a terminar o mês do Orgulho Gay, que já existe desde 1970, mas mesmo assim, 54 anos depois, ainda faz comichão a muita gente. Se ainda fazem questões como “Porque é que tem de haver o mês LGBT? Porque é que existe o Orgulho Gay? Porque é que têm de andar por aí na rua a exibirem-se com bandeirinhas e arco-íris?” Ou ainda o clássico “Eu não sou contra, mas não tenho de os ver a beijarem-se!”. Acho que não é a atividade preferida de ninguém (normal) ver pessoas alheias na marmelada na rua. Mas o mercado imobiliário está como está e gritar ao casal “Arranjem um quarto!” atualmente já não é tão eficaz. No entanto, uma coisa é certa: o amor é um direito de todos e se está a incomodar, é não olhar. Já dizia a minha mãe de cada vez que me queixava em casa porque a minha professora da primária tinha uma verruga no nariz.

A estas questões, respondo também com várias perguntas: Porque é que ainda é preciso um filho assumir-se aos pais e aos amigos? Porque é que há pessoas que ainda têm de esconder quem são? Porque é que há pessoas que têm medo de beijar o seu parceiro na rua? E podia continuar a fazer estas questões quase intermináveis.

Se se normalizou apenas a heterossexualidade, a comunidade LGBTQIA+ não teve direito a um espaço neste mundo. A sua invisibilidade impossibilita que vivam vidas normais e que sejam aceites independentemente da orientação sexual e identificação de género. Portanto quando alguém diz “Então e o orgulho hetero?” Está a fazer figura de orangotango porque não compreende a diferença entre o que foi normalizado daquilo que foi ostracizado desde sempre. Se há coisa que eu e os “LGBT+Fóbicos” temos em comum, é querermos que um dia nada disto seja necessário. As marchas, as manifestações… que seja tão simples como acordar e sair pela porta da frente em vez do armário.

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