A culpa é nossa. Histórias satíricas de jovens (des)empregados

Todos sabemos que está fácil encontrar emprego em Portugal. Aliás, tão fácil que o consumo de antidepressivos e ansiolíticos no nosso país tem vindo a aumentar entre os jovens, especialmente após o surgimento do Covid-19. No entanto, com ou sem pandemia, o desemprego e a falta de noção já não são nenhuma novidade. 

Esta geração que não faz nada — estuda até muito tarde, só tira cursos, passa a vida a fazer manifestações climáticas, dos direitos LGBTQI+, da igualdade de género, do #BlackLivesMatter, enfim, gente que se preocupa com coisas parvas — parecendo que não, também quer trabalhar. E se não for pedir muito, poder ser financeiramente independente antes da primeira artrose.

Inspirado na série “És mal pago? Ao menos tens emprego”, as seguintes histórias são tão ridículas como quem diz aquela frase e são baseadas em acontecimentos reais. Infelizmente.

A Rita

Fui a uma entrevista de emprego. Estava há mais de um ano desempregada e admito que estava farta desta vida de praia e shopping. Não encontrava nada na minha área ou quando encontrava não me respondiam aos e-mails, telefonemas, mensagens, cartas enviadas por coruja, ameaças de morte, etc. Finalmente encontrei um anúncio de emprego que realmente me cativou. Era a minha cara. Pedi dinheiro ao meu pai para a gasolina e lá fui eu de comboio. Falhou-me a coragem. Cheguei, ambiente descontraído, escritório moderno, pareceu-me tudo impecável à primeira vista. A entrevista estava a correr bem, o trabalho era exactamente o que esperava e já tinha experiência em muitas das tarefas que iria executar. E depois aconteceu o seguinte: 

“Rita, adorámos o teu CV porque já tens experiência na área e nós aqui fazemos um pouco de tudo. Pescamos, caçamos veados, limpamos vidros de prédios com 30 metros de altura – aquelas pessoas que às vezes vemos penduradas do lado de fora dos prédios a fazer rapel de glassex na mão, sabes? – damos uns toques na cardiologia vascular e às vezes construímos foguetões para a NASA. Mas nada de muito complexo. Vais ver que te ambientas. Conseguimos-te oferecer 400€ por mês e se tudo correr bem, levas mais uma maçã e uma banana para casa. Eu sei, eu sei que não parece verdade. As nossas maçãs conseguem ser ainda mais doces que as Pink Lady e as bananas dão 10 a 0 às da Madeira. Mas não digas nada à dona Dolores que para escândalos já nos chega os candidatos que aqui chegam e vão lá para fora dizer mal das nossas condições de trabalho. Não é Renato? É aquele ali ao fundo, com um ar muito deprimido, a fingir que não ouve. Está cá há 15 anos. Ainda vive com os pais, coitado. No ano passado oferecemos-lhe um ano grátis de Netflix para o recompensar.”

O António

Estava entusiasmado. Consegui uma entrevista numa das maiores empresas de Portugal, sem contactos, sem cunhas, sem rogar pragas aos RH por não atenderem o telefone. Tudo através de uma candidatura espontânea que tinha enviado em 1928. Entrei no edifício que só por si já gritava “EU SOU RICA!”, com a voz da Carolina Ferraz em 2008 na novela da Globo “Beleza Pura”. Os homens engravatados, as mulheres de salto alto. Rui, na casa dos 50, veio ter comigo ao lobby e encaminhou-me para uma sala com uma vista deslumbrante… para o metro, que a maioria dos funcionários da empresa não utilizava. A garagem de BMW’s, Mercedes e Range Rovers não foi construída para ganhar pó. A proposta de estágio era desafiante, o trabalho era árduo e iria mudar radicalmente o meu dia a dia. Basicamente mais valia comprar um saco cama e dormir no escritório. Mas olhava para o ambiente à volta e só pensava que ia valer a pena o esforço. No fim da entrevista, o Rui diz:

“Sabemos que é apenas um estágio, mas não gostamos dessa mania dos trabalhos não remunerados. Estamos dispostos a chular-te, desculpa, a ajudar-te e a apostar nas tua capacidades durante estes 6 meses. Depois disso provavelmente ficas na m*rda. Acreditamos que motivar os nossos funcionários monetariamente é a chave para o sucesso. Para o nosso, não para o teu.” Rui pousa em cima da mesa alguns papéis e desliza-os até António. Este não queria acreditar no que via. Nunca lhe tinham feito tal oferta. Estende a mão e recolhe os dois vales de 8€ para gastar em compras acima dos 50€ no Continente. “E ainda te pagamos o passe do metro. Aqui há metro, certo?”, acrescenta Rui.

O Pedro

Trabalho numa área sem grandes formalidades. Os ambientes sempre foram descontraídos e nunca precisei de vestir um fato. Arranjei recentemente emprego numa empresa que reflectia essa descontração. Se não me engano, no dia da entrevista vi alguém a passar por mim de pijama. E estava definitivamente alguém a dormir no sofá da copa. Não liguei. Entrei logo no dia a seguir à entrevista devido à urgência que tinham em arranjar alguém e eu precisava do emprego. A empresa era pequena, mas só no meu primeiro dia é que reparei que estava vazia, o que não podia corresponder ao número real de funcionários. E como era verão perguntei à minha chefe: 

“Muita gente de férias?” 

“Não”, respondeu, rindo-se. “Somos só nós. Por isso é que cá estás! Ou seja, vais fazer o mesmo que eu, o Jorge, a Maria, o Ricardo, a Amélia, o Tiago… mas vais ganhar menos, está bem? E claro que vais trabalhar mais horas, duh. Não sejas tonto. Olha, vai abrindo atividade nas finanças que nós só passamos recibos verdes. Entretanto a malta vai sair às 13h que agora já temos quem nos tape os buracos sem contestar muito. Tomas conta disto? Boa, até segunda!”

A Mafalda

Estava a estagiar há três meses. O ambiente era intimidante porque eram todos mais velhos e eu era a única estagiária. A empresa não era grande, logo dava mais nas vistas. Mas estava-me a adaptar bem. Gostava do que fazia, senti que estava a aprender e a ser bem sucedida. Apesar de nunca ninguém me ter elogiado, porque todos sabemos que elogiar (especialmente estagiários) é como engolir uma espinha de propósito.

Um dia, algo correu mal e eu fazia parte da equipa responsável por aquele trabalho. Começámos a tentar desvendar o que aconteceu. 

“Algo tão simples, óbvio que isto é erro de estagiário”, disse um colega.
Olharam todos para mim.

“Mas eu…” tentei.

“Não vale a pena”, interrompeu outro colega.

“Não te preocupes, eu quando tinha a tua idade também errei muitas vezes”, disseram-me.

“Não, mas eu não fiz essa…”

“Shhhh já passou”, disse o colega mais irritante à face da terra pondo o seu dedo indicador nojento à frente boca. 

“Mas…” tentei de novo.

“Para a próxima já sabes como se faz”, finalizou um colega e deu-me uma palmadinha nas costas. “Estamos sempre a aprender”. 

Foram-se todos embora com um sorriso na cara, porque tinham “encontrado” o culpado. Não porque resolveram o problema. Quem é que quer saber disso? 

Baixei com as orelhas de burro que me foram dadas desde o primeiro dia. Não contrariei.

Apesar do meu horário de saída ser às 18h e de ter entrado uma hora antes de toda a gente, nesse dia fiquei até às 20h só para verem o quão dedicada sou. Quero dizer, já não estava lá ninguém para ver… mas as câmaras de segurança comprovam-no! 

Não valeu a pena, não me renovaram o contracto.

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