Querem ver o lado negro dos vossos amigos? Apresento-vos a saga anual que retrata algo aparentemente simples: combinar uma passagem de ano. Num grupo de Whatsapp perto de si.
Se fôssemos todos Jedis, nem a Força conseguíamos usar para decidir que plano fazer na passagem de ano. Podíamos puxar pela Força de todos os Jedis antepassados, que morríamos às 23h59 ainda sem nada definido.
Tenho 25 anos e todos os anos é a mesma coisa. Ninguém da minha geração parece ter aprendido a lição. Falo da minha porque até os amigos dos meus pais conseguem ser mais decididos e a dos meus avós também. Dormem.
Tudo começa não numa galáxia muito distante. Começa com a pessoa que dá a iniciativa, a Leia do grupo e passa a mensagem umas semanas, talvez até um mês antes do dia 31 de dezembro: “Bora fazer alguma coisa todos juntos esta passagem de ano!”. Lá vai o R2D2 – neste caso o telemóvel – transmitir o plano ao grupo de pseudo-rebeldes que nada faz senão sugerir tudo e mais alguma coisa sem levantar o rabinho. Mas calma, há sempre tempo para uma maratona de dez horas na Netflix de uma só vez. Agora pensar na passagem de ano? Ah, isso combina-se bem. Faz-se isso lá mais perto da data.

Não se chega a conclusão nenhuma. Todos dizem “bora, bora!” e até ao dia 30 de dezembro o silêncio é total. O meu plano mais fiável continua a ser uma passagem de ano com as minhas cadelas, o meu avô a ressonar na sala e eu a fazer brindes com a Cristina Ferreira contra a televisão.
Mas entretanto há os que tentam. Os stormtroopers do grupo. Só que falham redondamente porque ninguém está interessado em fazer 300 km para ir para a terra da avó passar lá a noite porque a casa está vazia. Depois ninguém quer levar o carro. Ninguém quer guiar. Aliás a probabilidade de não haver electricidade na casa e de estar repleta de teias, aranhas e seres de outros planetas é tão grande como o pai do Luke Skywalker ser o Darth Vader. Já não é spoiler, seus incultos. Mais tarde ou mais cedo um sai-se com aquela “bora para o Terreiro do Paço!”. Não. Não. E não. Para confusão já me chega tentar sair do comboio todos os dias. Não vou escolher passar a meia-noite com desconhecidos não civilizados. Para isso já me basta passar pelo Cais do Sodré. Tenho 25 anos, nesta idade já começamos a ficar demasiado velhos para certas coisas.
Lá pelo meio da combinação ainda temos de levar com o Jar Jar Binks em cima, que não se cala nem diz nada útil, aliás ninguém sabe porque é que ele está no grupo do Whatsapp. Mas ele acaba por aparecer à mesma.

Entretanto, perdemos cinco amigos que se juntaram ao lado negro da Força e traíram-nos com pessoas mais decididas. O ultraje. Vão para as grandes festas, para as grandes bebedeiras. Como se o nosso grupo não fosse divertido o suficiente.
Depois de um duelo de lightsabers virtuais no Whatsapp, ao estilo Rey e Kylo Ren, decide-se o local. Woohooo! Conseguimos derrotar o Império da Indecisão! Resultou num pobre coitado a sacrificar-se, não a mão vá, mas sim a desgraçada casa dos pais (porque todos sabemos que malta de 25 ainda tem de chuchar no dedo em casa dos pais). Aquele bando de descontrolados numa casa de família onde não podem ver um relógio a bater a meia-noite só para mudar dois números na data. Estou a brincar, quem está no lado bom da Força só bebe Champomy e no máximo come umas gelatinas marotas.
Isto tudo, claro, combinado 24h e 39min antes do dia 31 de dezembro, o tempo que demora a fazer uma maratona dos nove episódios do Star Wars.